A mão que deu, tomou

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Nos fizeram sonhar. Pensar que seria possível.
Trocar armas por livros, tiros por sorrisos.

Nos deixaram olhar de cima e depois nos empurraram um teleférico em ruínas
A mão que nos deu, tomou.
O governo que se dizia salvar, matou.
A UPP que levaria sonhos, enterrou.

Um conhecido, um amigo, um sobrinho
Essa guerra está levando embora todos os meus sorrisos

Não dava pra imaginar que tudo isso aqui iria piorar
Agora por todo lugar que olho, tenho vontade de parar.
Eu to tentando respirar, mas lutando sozinho, não dá pra continuar

A gente anda tão preocupado com o aplicativo de celular que parou
que não consegue perceber tudo o que o Estado silenciou
é todo dia menos um trabalhador e muitos pensam, se for bandido, sim senhor!

A ordem é pra matar, se for trabalhador vamos consolar
mas se não for é só mais na conta pra somar.

Bandido bom é bandido morto.
Dia a dia o Estado mata um pouco. No meu corpo a sentença antecipa um ponto.
Pele preta, pés descalços, me caracterizam antes que eu dê um passo.

Esse é o compasso da dor. Em cada rima uma tentativa de aliviar a dor.
Eu transformo meu luto em poesia, sim senhor, na esperança de que um dia, o Complexo do Alemão represente o amor.

Legados de uma Olimpíadas no Rio de Janeiro

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O período olímpico acabou, com ele, a expectativa de construção um legado verdadeiro para nosso povo favelado. Pelo que percebo, por aqui a realização das olimpíadas não impactou positivamente na realidade dos moradores do Complexo do Alemão. Inclusive, arrisco a dizer que perdemos mais do que ganhamos.

Um grande pólo de esportes que atendia a toda a comunidade está fechado porque o Estado não repassou o dinheiro necessário para manutenção, todas as atividades esportivas da vila olímpica da Grota estão interrompidas e sem previsão de retorno. O prédio está sem energia e as linhas telefônicas estão cortadas. A piscina, que antes atendia centenas de alunos, está com a água verde de sujeira e acumula mosquitos. Esse, eu chamo de legado do abandono.

Com o anúncio do fim das olimpíadas, recebemos também o anúncio do fim da operação do Teleférico do Alemão. Ele foi inaugurado em 2011 e chegou a registrar 9 mil embarques diários. Com o fechamento do teleférico, acabou também uma feira de artesanato que movimentava a economia local e funcionava na estação palmeiras, a última estação do teleférico. É o legado da indiferença.

Há pouco menos de um mês, jornalistas comunitários foram presos e agredidos pela polícia enquanto cobriam uma ação. A operação tinha o objetivo de retirar dezenas de famílias que resolveram re-ocupar o espaço onde moravam, mas que por ordem do Estado foram retiradas e suas casas destruídas. O Governo, em contra-partida, pagaria mensalmente um aluguel social, garantindo com que essas pessoas tivessem onde morar até que casas definitivas lhes fossem entregues. Isso aconteceu há pelo menos 3 anos, nenhuma casa foi construída, o terreno estava ocioso e o Estado, justificado pela crise financeira, suspendeu o pagamento mensal do aluguel social.

Os jovens jornalistas e moradores do Complexo do Alemão ficaram presos por algumas horas, enquanto a polícia ameaçava e filmava todos os passos de outros jornalistas que foram ao encontro destes, para resolver a questão. Este é o legado da repressão, da tortura, da censura, da restrição à liberdade de imprensa e do abuso da autoridade policial.

Construída em 2010, a Biblioteca Parque funcionava no interior de uma das estações do teleférico. Era um dos principais pontos de cultura do Alemão, onde eram promovidos encontros musicais, saraus, concursos de literatura e transformou-se em um tipo de “ponto de encontro” dentro da favela. Logo depois das olimpíadas, com a intensificação da violência na região (que fica ao lado de uma base da unidade de polícia pacificadora) e também com o corte de verbas anunciado pelo governo do Estado, a biblioteca está de portas fechadas e toda a estação do teleférico está abandonada e ocupada pela polícia. A maioria das nossas conquistas, no campo da cultura, aqui no complexo do Alemão foram perdidas e canceladas pelo Estado. Este é o legado da corrupção, ganância e poder (que não o do povo).

Uma Clínica da família funcionava em uma das partes mais altas do complexo do Alemão e facilitava o acesso à saúde para os mais idosos que não tem condições e possibilidade de seguir até às partes mais baixas da favela para receber atendimento médico. Recentemente, o Governo anunciou o encerramento da unidade “por motivos de segurança”, já que na região os confrontos entre policiais e traficantes são quase que diários. Este, é o legado do descaso.

No dia Cinco de dezembro, uma tropa de policiais armados e denominados como “choque de ordem”, por volta das nove horas da manhã, entrou na Grota, um dos principais acessos do Complexo do Alemão. A ordem era remover dezenas de barracas de comida e outras lojas construídas por mais de dez anos, ao longo da Rua Joaquim de Queiroz.

Do outro lado do morro, quase que simultaneamente, um tiroteio que acontecia no “Mineiros”. Dentro de casa, dona Nilza de Paula, foi baleada com um tiro na cabeça. Ela tinha 51 anos, conhecida por muitos como “Tia Neném”, ela estava dentro de casa, foi socorrida por vizinhos e morreu logo em seguida em um hospital da região.

De acordo com um levantamento produzido pelo repórter Betinho Casas novas, “Tia Neném” é a 20ª morte registrada durante o ano de 2016. De feridos e baleados os dados atingem a marca de 42 pessoas. Este é o Legado da morte e nessa, precisamos concordar, o Estado ganha medalha de ouro.

Ainda assim, somos campeões. Persistimos acordando às 6h da manhã, com ou sem tiroteio, seguindo em alerta o caminho para pegar o ônibus lotado, chegar ao trabalho e ser cobrado da necessidade de chegar no horário e de produzir além do necessário. Seguimos vencedores, por sair do trabalho e enfrentar horas de engarrafamento, chegar na faculdade e lutar consigo mesmo, pela concentração necessária para seguir o período, o ano, o dia.

Seguimos vencendo por acreditar que será possível, um novo modelo de cidade que contemple os mais pobres e que respeite a diversidade, apesar do cenário nos mostrar completamente o contrário. Seguimos vencedores porque inovamos e estamos sorrindo apesar do medo de encontrar a “Bala que roda perdida” e que vem de uma guerra justificada pelas drogas. Se há um povo a quem se deve o “mérito da vitória” é o povo favelado. Vencemos todos os dias. Venceremos.

Texto originalmente publicado em The Guardian

Uma história de (não) ficção

2:20 da manhã. Ela estava dormindo depois de assistir alguns episódios de um seriado americano qualquer. Daqueles só pra rir enquanto o sono não vinha e veio. Dormindo mesmo. Dormindo bem.

TIRO. TIRO. barulho de carro. TIROS. Algumas motos aceleradas. TIROS.

O que separa a sua cama da rua lá fora é apenas um parede. Uma parede de um quarto com 10 mts4 e um banheiro e 1x1mt que custa 250 reais por mês. 

O que a protege do conflito lá fora, do frio lá fora, da chuva lá fora, nao protege do medo de dentro. De dentro do quarto, de dentro de si.

Nessa noite, ela demorou pra processar como iria reagir. Sono, medo, susto. São muitas coisas acontecendo de uma 1 vez. Deitada no chão, tenta se soltar da coberta. Ela estava bem aquecida. TIROS.

Só percebe realmente o perigo quando o telefone toca. Vem aqui pra casa. Agora! TIROS. 
Poderia ser uma ficção qualquer, mas acabou de acontecer. Comigo. O caveirão é branco e isso nada tem a ver com a paz.

O complexo do alemão é (não) ficção.

Sobre morrer

A gente não morre (só) quando o sangue corre pelo becos. A gente morre todo dia.

A gente morre com cada palavra, com cada olhar, com cada deboche vindo daquele que deveria nos proteger.
A PM da zona sul, não é a PM que grita “Eu sei que você é amigo do Raull“.

A gente morre todo dia. Morre um pouquinho quando escreve, quando transmite ao vivo, quando escuta o tiro.

A gente morre a cada registro.

É MUITO difícil. Não dá pra saber de onde vem o tiro, o que eu tenho a ver com isso? O nosso grito não é ouvido.

Talvez você até tenha visto, são CINCO DIAS seguidos de tiro. O que você tem a ver com isso?

A gente tenta transformar toda dor em grito, por vezes erra, aí somos considerados bandidos.

Nosso grito nunca foi ouvido. O que você vai fazer por isso?

Feliz Aniversário, Mamis <3

Nota

Hoje é o aniversário da mulher mais linda do mundo todo!
Minha Mãe ❤
Imagino que não seja fácil a missão árdua de criar essa coisinha louca que esta escrevendo pra você agora. Não posso imaginar as noites que passou em claro me esperando12003221_767268516716762_4992593771537435113_n chegar, sentada no sofá. Das lágrimas que mesmo sem querer fiz você derramar. Da saudade que faço você sentir todas as vezes que eu sumo do mapa, e depois apareço com sorriso no rosto e como se nada tivesse acontecido. rsrs.
Eu te amo tanto e tenho tanto orgulho de sua garra e trajetória. Lembro desde sempre (e é até hoje) a sua dupla jornada de trabalho e escola (para terminar o ensino fundamental) à noite, depois terminou o ensino médio, agora está na reta final de concluir o curso técnico de enfermagem, que sempre foi o seu sonho.
Observo desde sempre, todos os seus sacrifícios para não deixar faltar nada pra mim e pra minha irmã e vejo de longe (gosto assim) o seu olhar de admiração e orgulho quando conseguimos conquistar coisas boas nessa vida.
Eu escrevo do que eu sinto e me emociono, porque sinto de verdade toda essa emoção que sai pelos dedos enquanto escrevo esse texto.
Quero que todos os seus sonhos sejam realizados, quero me formar só pra você colocar aquele anel que você tanto fala, aqui no meu dedo.
Quero estar por perto em todas as suas conquistas, nas suas lutas e quero receber pra sempre esse carinho que só você sabe me dar.
Eu tenho a incrível sorte de ter você como minha Mamis e de poder te dizer hoje e por muitos e muitos anos, FELIZ ANIVERSÁRIO.
Te Amo! ❤

Solidão

Aprendi a solidão com você
Em cada momento que estou só, penso em você, no quanto era bom estar sozinha e do seu lado.

O mundo parecia diferente.
Seu coração era gélido como iceberg, mas seu sorriso me aquecia tanto!

Quando penso nos poucos sorrisos que roubei de ti, meus olhos marejam.
Eu escrevo o que tem dentro de mim, se saudade ou nostalgia não sei bem
O que sei é que a solidão, de um jeito bem particular, me conecta a você e isso ao mesmo tempo promove um encontro comigo.

Não é que queira voltar a viver a solidão do seu lado, é que através desse encontro de solitude me encontrei.

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